Influenciadores discutem preconceito contra asiáticos

João Mello

 

A pandemia da Covid-19 evidenciou o preconceito para com pessoas de descendência asiática. Para debater o que é o "racismo asiático" e como ele afeta as pessoas, a FEA Social convidou Hideki Uehara (Dekidin) e Leonardo Hwan para participarem de uma live. Dekidin é membro do Go HaN Go, grupo que visa desmistificar a cultura e a gastronomia asiáticas, e Leo Hwan é produtor de conteúdo em um canal no YouTube com mais de 246 mil seguidores, no qual fala sobre representatividade, masculinidades e cultura pop.

 

Os influencers argumentaram que "racismo" não é o melhor termo para se referir ao preconceito ante asiáticos, por se tratar de uma questão bastante diferente daquela relacionada a pessoas negras, mais estrutural no Brasil. Dekidin defendeu que chamar por um termo melhor é uma forma inicial para sair da bolha e chegar a mais pessoas que precisam compreender esse preconceito. Leo Hwan comentou que existe um "sentimento anti-asiático" no país pelo menos desde o século XIX, quando chineses seriam trazidos para o Brasil para contribuir com a economia, mas um viés preconceituoso foi predominante para que isso não acontecesse. 

 

Foi defendido que muito dos preconceitos contra pessoas amarelas advém de um ideal do "Mito da minoria modelo". Essa é uma concepção segundo a qual os asiáticos representam um exemplo a ser seguido pelas outras minorias. A partir disso, são criados diversos estereótipos: de que são inteligentes, educados, honrados, "certinhos" e que não causam problema, não questionam a hegemonia branca ou querem interferir no status quo. Isso coloca as pessoas em posições de subserviência e quaisquer atitudes que desviem desse padrão são observadas com ainda mais preconceito. "É ruim qualquer pessoa ser estereotipada, isso te torna menos humano", comenta Leo. 

 

Esse "Mito" também é utilizado para oprimir outras minorias. Dekidin comenta que "os amarelos não morrem pela cor da pele, diferente dos negros", mas esses segundos são constantemente comparados com os primeiros como se esse ideal de passividade fosse real. "Cria pressão mental e social, e cria uma 'mão invisível' para outras minorias." Ainda, o criador de conteúdo observa como há "a minoria modelo da minoria modelo", em que japoneses são enxergados de forma positiva e chineses, negativa. 

 

Os criadores de conteúdo também comentaram sobre como o Mito da Minoria Modelo pode afetar as pessoas no sentido de formar masculinidades tóxicas. Os estereótipos do homem amarelo o colocam como uma figura dessexualizada, sensível, frágil e que não possuiria atributos tipicamente associados ao "homem" pela mídia. Dessa forma, muitos deles parecem reforçar atitudes patriarcais, machistas como forma de "compensar" ou contradizer essa visão estereotipada. 

 

Perguntados pelo público da live se era possível se orgulhar da descendência asiática e exaltar costumes, valores e traços físicos herdados sem reforçar estereótipos, os influencers comentaram que, sim, deve-se ter orgulho de suas origens, mas é preciso ter cuidado para isso não se tornar uma forma de opressão a outras minorias ou reforçar um nacionalismo pelo qual o Japão, por exemplo, passou em sua história recente.  

 

Dekidin compartilhou uma história pessoal para ilustrar como esses nacionalismos podem ser perigosos. Ele conta que seu avô veio para o Brasil de Okinawa, território japonês, e era muito nacionalista: exaltava a cultura japonesa e não queria que seus filhos se casassem com brasileiros. O avô precisou voltar ao Japão, mas lá sofreu discriminação por ser visto como alguém que abandonou sua pátria em um momento de necessidade. Quando voltou ao Brasil, estava com a cabeça mudada, por ter se colocado no lugar do outro, e reconheceu como os brasileiros o receberam bem. 

 

Leo e Dekidin usaram o exemplo para explicitar como constantemente estabelecer diálogos é algo importante para mudar preconceitos. Eles comentaram que muitos descendentes de asiáticos não se entendem como amarelos e praticam outros tipos de preconceito. Há a necessidade de entender que, apesar de serem brasileiros, os descendentes de asiáticos carregam consigo uma outra cultura que deve ser respeitada e respeitar. "Juntos somos mais fortes, mais empáticos", reflete Leo Hwan. 

 

 

Data do Conteúdo: 
quarta-feira, 7 Outubro, 2020

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