Atlética e ANFEA promovem live sobre racismo nos esportes

João Mello

 

"O racismo é uma realidade que permeia todas as vertentes da nossa sociedade, inclusive o esporte." Esse foi o mote que impulsionou a Atlética da FEA e a Associação de Negros Feanos (ANFEA) a promoverem a live Esporte, Determinação e Inspiração, para conversar com pessoas negras que construíram suas carreiras no mundo dos esportes e tiveram – e ainda têm – de enfrentar uma série de dificuldades. 

 

Fátima Aparecida da Silva arbitrou jogos de basquete no Brasil e no exterior. Ela era olhada com estranheza na infância quando jogava futebol na rua com os meninos. Fátima conta que começou a se interessar por esportes na escola e, mais especificamente, pelo basquete porque sua mãe gostava de assistir aos jogos. Formada em Educação Física e Pedagogia, ela relata que a arbitragem a abriu portas e que "esporte e educação são dois alicerces imprescindíveis desde cedo".

 

Também conta que brincava na rua, até sua mãe chegar do trabalho, Soraia André, atleta que representou o Brasil no Primeiro Mundial Feminino de Judô. Ela chegou até o esporte por acaso, e foi complicado encontrar uma academia para praticar porque não havia mulheres negras praticando o judô na época. Pensando em pessoas que conhece que se envolveram com crime, prostituição e drogas, Soraia reflete: "devo minha vida, minha construção enquanto pessoa, ao esporte".

 

Depois de casos de preconceito contra os jogadores Márcio Chagas e Arouca, Marcelo Carvalho decidiu fundar o Observatório da Discriminação Racial no Futebol: principal entidade responsável por monitorar e divulgar os casos de racismo no esporte. Marcelo percebeu que, "usando a força do futebol", poderia expandir o debate e tratar do racismo e da negritude na sociedade como um todo. "Não nos contam a nossa história, mas ela é muito rica."

 

Fátima, Soraia e Marcelo comentaram sobre como encontraram motivação e força de vontade para superar dificuldades e seguir em frente. Eles disseram que a motivação é algo que vem de dentro e que cresce conforme se vencem barreiras e percebe-se que é possível ocupar outros espaços e melhores posições. Soraia aponta como foi motivada pelo vislumbre da possibilidade de sair de uma condição de invisibilidade social. Para ela, o esporte foi uma oportunidade, ou uma missão, para dar condições de vida dignas para sua família e conquistar direitos fundamentais.

 

Apesar de terem conquistado oportunidades, os participantes da live argumentam que, ainda hoje nos esportes, muitas mulheres e pessoas negras continuam se deparando com portas fechadas. A arbitragem de jogos por mulheres só foi permitida no Brasil no final da década de 90, e Fátima Aparecida relata como ainda há muito poucas mulheres, principalmente negras, na área. "Precisamos acreditar que podemos ocupar esses lugares; quando entrávamos na quadra diziam que éramos loucas e que deveríamos esquentar a barriga no fogão e esfriar no tanque." 

 

Mais negros são vistos dentro das quadras como jogadores, mas são poucos aqueles que ocupam as posições de técnicos e conselheiros. Marcelo Carvalho comenta que é preciso mudar a forma como essas comissões são escolhidas: nos clubes brasileiros, não há critérios para a decisão, as pessoas são simplesmente convidadas. Criam-se então comissões técnicas formadas por redes de influências e compostas apenas por brancos a partir de algo que Soraia André caracterizou como "pacto narcísico". "Sem diversidade, a gente não muda nada", conclui Marcelo. 

 

Apesar das problemáticas envolvidas e da carência de políticas públicas que priorizem a prática esportiva, os participantes da live esperam que os jovens possam continuar acreditando no esporte e na educação como forças poderosas para mudar suas carreiras e suas vidas. O esporte pode ser esse instrumento de inclusão social e de combate a preconceito e violência. Quando perguntados como gostariam de ver o Brasil daqui a 5 anos, Fátima, Soraia e Marcelo reiteraram a importância do esporte, da educação e da necessidade contínua de eventos como este, para continuar discutindo o racismo para que, no futuro, ele possa deixar de existir.

 

 

Data do Conteúdo: 
sexta-feira, 16 Outubro, 2020

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