Doutorado - Sobre as cinzas do cativeiro: educação, trabalho e terra entre ex-escravos e descendentes após a abolição no oeste paulista

Tipo de evento: 
Defesa
Data e hora: 
17/09/2021 - 14:00 até 17:00

 

Lucas Cavalcanti Rodrigues

Doutorado - Sobre as cinzas do cativeiro: educação, trabalho e terra entre ex-escravos e descendentes após a abolição no oeste paulista

Orientador: Prof. Dr. Renato Perim Colistete

Comissão: Profs. Drs. Dante Mendes Aldrighi, Leonardo Monteiro Monasterio e Willian Roderich Summerhill

Link Youtube: https://Youtu.Be/Brdvxsdqjzu

Resumo*

No início do século XX, o Oeste paulista prosseguia em sua expansão econômica acompanhando as crescentes exportações de café, que se traduziam em elevada demanda por mão de obra nacional e imigrante. A combinação de expansão econômica com o arrefecimento do ritmo da imigração europeia, em relação aos níveis observados na década de 1890, criou um cenário de relativa escassez de trabalho em São Paulo. A posição de barganha mais favorável dos trabalhadores criou oportunidades de contratos mais vantajosos e melhores condições no mercado de trabalho, inclusive para ex-escravos e descendentes. Esta tese investiga a população negra em São Carlos, um importante município do Oeste Paulista, em meio à expansão econômica da primeira década do século XX e da chegada em massa de imigrantes na região. A tese mostra que a população negra dessa localidade e possivelmente a de municípios vizinhos foi capaz de matricular seus filhos em escolas primárias, ocupar melhores posições no mercado de trabalho, realizar contratos como colonos nas fazendas e até mesmo conseguir acesso à propriedade de terra. Vinte anos após a Abolição, os indicadores socioeconômicos da população negra não divergiam significativamente dos observados para imigrantes de primeira geração. A tese mostra, ainda assim, que permaneciam diferenças substanciais entre as duas populações, particularmente em termos demográficos e educacionais. Famílias imigrantes eram maiores que as famílias negras brasileiras e a mulher imigrante possuía maior taxa de fertilidade. Tais características demográficas representavam maior capacidade de acumulação de recursos pelas famílias imigrantes, mesmo que aparentemente não houvesse diferenças de produtividade entre imigrantes e negros. Por outro lado, a despeito da pequena diferença das taxas de matrícula na educação primária de crianças negras e imigrantes, havia disparidade maior em favor de mães e pais imigrantes em relação aos de famílias negras. Aqui, a herança da escravidão, que praticamente deixou toda a população cativa sem acesso à educação, significou um grande desvantagem para pais e mães das famílias negras. Em uma economia essencialmente rural, a vantagem educacional de imigrantes parece ter produzido um efeito econômico relativamente limitado inicialmente, dada a baixa complementaridade entre capital humano e trabalho agrícola. No entanto, nas décadas seguintes a combinação de urbanização e industrialização mudou o perfil da demanda por mão de obra, beneficiando desproporcionalmente populações com maiores níveis educacionais e favorecendo em especial os imigrantes. Desta forma, ao lado de fatores já destacados pela literatura, como racismo e violência, as evidências reunidas nesta tese sugerem que as disparidades demográficas e dos níveis educacionais tiveram um papel central nas desigualdades acumuladas entre descendentes de imigrantes e descendentes de escravizados em São Paulo ao longo do século XX.

*Resumo fornecido pelo autor

 

Departamento:

Voltar para a página de eventos